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Folha • Estado de São Paulo • R7 • Veja • BBC Brasil • Terra • UOL • Globo
‘Na cidade, sentimos a mesma insegurança que forasteiros sentem na floresta,’
diz Lâmina, um homem Awá. Mas as densas florestas da Amazônia que cobriam vastas áreas do nordeste do Brasil, praticamente desapareceram. Não para serem substituídas por cidades, mas por um terreno baldio de fazendas de gado aparentemente intermináveis. O remanescente dessas grandiosas florestas, algumas das mais antigas em todo o mundo, é onde os povos indígenas têm resistido ao avanço dos fazendeiros e madeireiros.
Isto é a história de uma tribo, os caçadores-coletores Awá, e sua relação extraordinária com a floresta. Uma história de resistência, de destruição, de esperança e, talvez, de sobrevivência.
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‘Se meus filhos estão com fome, eu só preciso ir para a floresta e posso encontrar alimentos para eles’, diz Caititu Awá. Mulheres encorajam seus maridos para retornar com carne de caça abundante, e os homens obedecem. Os Awá que ainda vivem sem contato caçam na floresta com arcos de 2 metros de comprimento. Flechas voam alto e silenciosamente para a copa da floresta, permitindo que vários tiros sejam feitos antes que a caça perceba a presença dos caçadores.
Alguns Awá assentados confiscaram espingardas de caçadores ilegais e tornaram-se atiradores experientes. Mas cada caçador mantém um arco bem feito a mão e um conjunto de flechas para quando a munição acabar.
A floresta fornece a sua riqueza, mas nem tudo é tomado. Alguns animais, como a capivara e a harpia, são tabu e os Awá não os comem. Acredita-se que comer morcego causa dor de cabeça. O gambá grande? Mal cheiro. Beija-flores? Pequenos demais. Outros animais são caçados apenas em determinadas épocas do ano. Deste modo, os Awá asseguram a sobrevivência de toda a floresta, e a própria.

Os Awá são caçadores especialistas em mímicas. Eles podem distorcer suas vozes para recriar os sons da floresta, desde as chamadas guturais do macaco guariba ao assobio do macaco-prego.

Os Awá conhecem suas florestas intimamente. Todos os vales, igarapés, e trilhas estão inscritos no seu mapa mental. Eles sabem onde encontrar o melhor mel, quais árvores grandes na floresta estão produzindo frutas, e quando os animais estão pronto para serem caçados. Para eles, a floresta é a perfeição: eles não podem imaginar o seu desenvolvimento ou melhoria.
‘Os forasteiros estão chegando, e a nossa floresta está sendo engolida’, diz Takia Awá. Para os forasteiros- para nós- ficar parado é ficar para trás.
A fronteira está sempre em movimento, impulsionada pelas inquietas sociedades ocidentalizadas, que têm que infringir em novas terras simplesmente para manter seu modo de viver.
Talvez seja um outro tipo de nomadismo.
Camadas espetaculares de recursos subterrâneos no Brasil têm ajudado a impulsionar seu milagre econômico. Sete bilhões de toneladas de minério de ferro repousam sob a mina de Carajás, 600 km (370 milhas) à oeste do território Awá. É a maior mina de minério de ferro do planeta. Os trens que se estendem por cerca de 2 km (1¼ milhas), alguns dos mais longos do mundo, percorrem todo dia e toda noite entre a mina e o Oceano Atlântico. Em seu caminho, eles passam a poucos metros das florestas onde ainda vivem Awá isolados.
Quando os 900km (550 milhas) de ferrovia foi construído na década de 1980, as autoridades decidiram contatar e assentar muitos dos Awá cujas terras foram cortadas pelo projeto. Logo, o desastre seguiu na forma de malária e gripe: das 91 pessoas em uma comunidade, apenas 25 estavam vivos quatro anos depois.
Hoje, a ferrovia traz forasteiros ávidos pela terra, trabalho e os animais de caça que são facilmente capturados nas terras da tribo.
Mas os colonos invasores não necessariamente significam o fim para os Awá. Outras tribos no Brasil, como os Yanomami, sofreram invasões devastadoras. Eles se recuperaram quando o governo foi pressionado a tomar medidas para proteger suas terras.
Um dos trens mais longos do mundo passa ao lado da terra Awá, carregando 30.000 toneladas de minério de ferro.








‘Pomba!’ disse Periquito, uma mulher Awá. ‘Vamos chamá-la de Pomba – as pombas cantam e caminham no chão.’
Os Awá esperam para escolher os nomes de seus filhos até que atinjam uma idade em que o nome certo se apresenta. Outra filha de Periquito se chama Árvore do Mato. Uma criança Awá que se contorce muito acaba de ser nomeada Minhoca.
A tribo é guardiã extraordinária de animais de estimação: na maioria das famílias tem mais animais do que pessoas, como os quatis, os porcos selvagens e os urubus. Mas, sem dúvida, os macacos são os favoritos dos Awá.

‘EU FICO MUITO TEMPO AMAMENTANDO os filhotes de macacos’, explica Periquito. ‘E quando eles crescem, eles retornam para a floresta para viver. Eu ouço o macaco guariba que antes era meu animal de estimação, cantando lá na floresta.’
Apesar dos macacos selvagens serem uma fonte importante de alimento, uma vez que um bebê é trazido para a família e amamentado, ele nunca será comido. Mesmo se ele retorna para a floresta, os Awá irão reconhecê-lo como hanima: parte da família.
Os periquitos são lindos mas piam muito alto. Os Awá compartilham frutos da floresta com eles.
Os macacos-prego são um dos animais de estimação mais levados, e eles estão sempre brincando com os seus donos.
As cotias são os únicos animais que podem abrir a casca dura do fruto da castanha-do-pará. Mas a sua forte mordida não impede que as mulheres Awá amamentem os filhotes.
Estas criaturas da noite vigiam os Awá conforme eles caminham na floresta, seu caminho iluminado com a queima de resina da árvore.
Os caititus são dóceis como bebês, mas quando crecem, são adultos fortes — com presas afiadas.
Os quatis são familiares do texugo. São experientes em escaladas e adoram dividir a rede com os humanos.
Os micos adoram brincar com as crianças Awá. Pequena borboleta, uma menina Awá, tem um mico de estimação, e eles gostam de fazer travessuras um com outro.
Você pode imaginar que um ritual realizado na floresta numa noite de lua cheia seria sinistro. Mas não a viagem dos Awá para o reino dos espíritos da floresta: esta é uma atividade de família. Conforme mulheres decoram seus maridos com penas de urubu-rei, usando resina de árvore como cola, as crianças observam.
Mais tarde, conforme os adultos cantam mais alto, e os homens viajam até o lar dos espíritos, os bebês dormem ao luar. Os Awá não usam drogas ou álcool: o mero ato de cantar deixa os homens em estado de transe.
Durante o ritual, os homens deixam a Terra para trás enquanto viajam para o iwa, o domínio dos espíritos da floresta. Eles chegam a este lugar por uma porta que assume a forma de um abrigo de caça, um portal entre os mundos. Os homens se revezam para entrar, e quando chegam ao iwa eles encontram as almas dos seus antepassados e os espíritos da floresta.
Os Awá que vivem sem nenhum contato com forasteiros são algumas das últimas pessoas isoladas do planeta.
Como nômades, eles carregam o que precisam com eles enquanto se movem: arcos e flechas, crianças, animais de estimação. Tudo vem da floresta: as cestas feitas de folhas de palmeira, os cipós utilizados para subir em árvores, e a resina de árvore queimada para fornecer a luz.
Os Awá usam cipós para escalar as arvores mais altas da floresta, em busca de mel.
Após uma caçada bem-sucedida, os Awá fazem rapidamente mochilas trançadas com folhas de palmeira.
Flechas de 2 metros de altura voam alto na copa da floresta, guiadas por penas de harpia.
Estas fortes redes são feitas de fibras de palmeira.
Os Awá nômades que ainda vivem isolados na floresta não constroem casas, porém constroem abrigos de galhos e folhas de palmeira.
Apesar da sua extrema auto-suficiência, os isolados também são especialmente vulneráveis. O resfriado comum pode matar um grupo inteiro, e se eles se deparam com madeireiros ilegais, os seus arcos e flechas não serão páreo para as armas dos invasores.




Os Awá isolados estão sempre se movendo entre as áreas de caça. Mas agora eles têm outra razão para se manterem em movimento.
Não é apenas os Awá que apreciam as árvores gigantes da floresta: o seu território está legalmente protegido, mas quadrilhas criminosas de madeireiros ganham muito dinheiro aqui. Só a resistência da tribo e o início da estação chuvosa atrasa o seu avanço; o governo está pouco presente na fronteira.
Quando a estação das chuvas chega ao fim, os madeireiros intensificam as suas atividades e os fazendeiros queimam ainda mais a floresta dos Awá. Nuvens de fumaça preta sobem da copa, obscurecendo o sol. A floresta arde e crepita: parece o fim dos dias.
O trabalho dos madeireiros e fazendeiros já atingiu um ponto crítico: cerca de 30% de uma reserva Awá legalmente protegida foi desmatada. As florestas dos Awá estão desaparecendo mais rapidamente do que qualquer outra área indígena no Brasil.
Imagem baseada em dados de satélite de 1985 e 2010. A linha branca é o Território Indígena Awá; outros Awá, incluindo alguns isolados, vivem fora da reserva. Todos estão ameaçados pelos invasores.
Quando ele viu uma cidade pela primeira vez, Estrelinha Awá pensava que os habitantes viviam no topo de edifícios, como macacos que dormem na copa das árvores. Ele não conseguia entender por que algumas pessoas viviam nas ruas, e ninguém estava dando-lhes comida ou abrigo.
Se suas florestas são derrubadas, os Awá não têm nenhuma esperança de sobreviver como um povo. Como Lâmina Awá diz, ‘Se você destruir a floresta, você destrói os Awá também.’
Mas, enquanto suas florestas estão de pé, todos os Awá podem decidir como querem viver, e o que eles querem do mundo exterior.
Aqueles que permanecem isolados podem tomar a decisão mais importante de todas: se fazem contato conosco ou permanecem na floresta. A escolha deve ser deles, não nossa. Nós certamente não podemos lhes dever menos.
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