Um índio da Amazônia em Londres: entrevista com Nixiwaka Yawanawá

 
Nixiwaka Yawanawá mora no Reino Unido e entre 2013 e 2015 trabalhou na sede da Survival International para gerar atenção para os direitos dos índios amazônicos. Sua tribo, os Yawanawá, tem uma população de mais de 900.

Êwê anê Nixiwaka, Ê Yawanawa ihuhu, êwê yurahûki kânu, pênâku hiash. Mâ ika ânu, matuvê iwânâ, mahu tapipai ê uitamêa. Nênuashê kashê êwê yurahâu ravâna ipai

Meu nome é Nixiwaka. Eu sou um membro da tribo Yawanawá. Tenho a intenção de voltar para a minha tribo, um dia, mas primeiro eu quero ficar no Reino Unido por um tempo, para que quando eu voltar eu serei capaz de ajudar o meu povo.

Infância e Família

O nome Yawanawá quer dizer ‘O Povo da Queixada’. Isto é porque, como uma tribo, estamos sempre juntos – nas caçadas, e na vida em geral. Somos um bando.

Nasci em Kaxinawa, a parte mais sagrada das terras Yawanawá, onde meu povo origina. Kaxinawa, agora conhecido como ‘O lugar sagrado’, é onde meu avô e todos os nossos grandes chefes estão enterrados. Eu vivi lá por um mês quando era bebê, e depois, mudamos para Tarauacá, uma pequena cidade perto de nossas terras.

Meu pai tinha sido solicitado pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio) para representar os povos indígenas da região, no transporte, como motorista, e foi por isso que nós nos mudamos para Tarauacá. Ele e mais alguns foram os primeiros índios a serem empregados pela FUNAI no Acre. Ele falava muito bem português. Na minha infância estudei na cidade até quando eu tinha 10 anos de idade, e em seguida, voltamos para a nossa aldeia, chamada de ‘Nova Esperança’. Agora, Kaxinawa é conhecido como ‘o lugar sagrado’.

Meu pai estava preocupado porque fomos removidos de nosso povo e queria que nós pudéssemos crescer dentro da forma de vida Yawanawá. Na floresta, você está completamente ligado aos elementos; você está cercado pelos sons constantes de animais, insetos, sapos e água. À noite, você está iluminado pelas estrelas, que brilham sem parar. Isso é lindo!

Eu sou de uma família grande. Meu pai e minha mãe são de diferentes tribos: o meu pai é Yawanawá e minha mãe é metade Shanenawa, da Nação dos Papagaios. Juntos, eles tiveram cinco filhos, mas eu tenho 10 outros irmãos de outros casamentos de meu pai.

Tenho três filhos: dois meninos de um relacionamento anterior e uma menina do meu casamento com Oona Béat Yawanawá. Eles são todos metade Yawanawá do meu lado. Todos os meus filhos carregam a identidade forte Yawanawá e eu pretendo ensiná-lhes as nossas tradições.

Quando eu era criança, me ensinaram português e nossa própria língua, Yawanawá. Infelizmente, quando entramos em contato com pessoas de fora, o nosso povo foi obrigado a falar apenas português. Eu era discriminado na escola, então eu perdi a minha língua indígena. Hoje, o povo Yawanawá fala ambas as línguas, e ensinam ambas línguas para as gerações mais jovens. E agora, vivendo em Londres, eu tive de pegar um pouco de inglês!

Aprender o inglês tem sido muito positivo, como agora eu entendo muito mais sobre os nossos direitos como cidadãos indígenas brasileiros. Eu sei como usar certas tecnologias e como se comunicar com as pessoas brancas. Espero que eu possa compartilhar com o meu povo o que é bom e o que não é bom sobre as formas de vida ocidental.



© Nixiwaka Yawanawa

Primeiro contato

Quando fomos contatados, muitas pessoas Yawanawá morreram de resfriados comuns, de doenças que eles não conheciam. Nossos xamãs não podiam curá-los.

Após o contato, as pessoas brancas forçaram as suas opiniões sobre nós. Fomos obrigados a mudar a forma como nós orávamos, a nossa forma de vestir, as línguas que falávamos e até mesmo a maneira como víamos o mundo. Eles criticavam a forma como vivíamos e nos diziam que seu modo de vida era melhor do que o nosso. Missionários nos disseram que os nossos rituais eram obra do demônio. Sentimos com vergonha, rejeitados.

Não sabíamos que precisávamos de um direito legal para viver em nossas próprias terras! A terra era e é, obviamente, a nossa. Nunca duvidemos disso.

Quando os brancos chegaram pela primeira vez em nossas terras Yawanawá, nos apresentaram a coisas que nunca tínhamos conhecido antes como o álcool, açúcar e sal.

Acho que o nosso próprio modo de vida é a maneira mais saudável para o Yawanawá a viver neste mundo e ainda agarrar o que aprendemos do lado de fora. Estamos felizes em compartilhar o que sabemos, as coisas que ainda estamos aprendendo com a floresta.

Mas muitos jovens Yawanawá ainda acabam em cidades, indo a festas, bebendo muito e usando prostitutas. Agora, como muitas outras tribos, também temos um grande problema com o diabetes.



© Nixiwaka Yawanawa

Conhecimento da floresta

Temos pessoas que são conhecidas como ‘Doutores da floresta’. Eles sabem tudo o que há para saber sobre plantas medicinais. Eles dizem que este mundo é um belo lugar para viver; que cada um de nós na Terra tem a responsabilidade de cuidar dele.

Sabemos que a medicina ocidental está agora usando nossas plantas e remédios que nós, os Yawanawá, temos usado por séculos. Casca de árvores, saliva do sapo… temos as respostas para as curas e venenos. Mulheres esfregarm um tipo de planta de batata em suas barrigas, a fim de tentar engravidar. Outras plantas, umas delas chamado de ‘Hukâshupa’, é usado para dar sorte nos relacionamentos. A floresta é mágica.

Eu acho que o mundo ocidental talvez pudesse aprender a viver uma vida de maior harmonia e paz com o nosso meio de viver. Estou ansioso para uma época em que nós podemos combinar o conhecimento Yawanawá e idéias ocidentais.

Desde tempos imemoriais, o povo Yawanawá tem usado ‘Rumê’ (rapé de tabaco com casca de uma árvore específica), como parte da nossa tradição e cultura. Nós principalmente usamos Rumê em nossas cerimônias sagradas com a UNI (nossa bebida sagrada conhecida como ayahuasca).

Mas o ‘Rumê’ também é usado à tarde, antes do banho. A água limpa o nosso corpo e espírito, é a nossa parte favorita do dia.



© Nixiwaka Yawanawa

Tradições Yawanawá

Eu tive um relacionamento próximo com meu Avô Tuîkuru, Tata, tios e tias. Tuîkuru nos ensinou tudo o que há para saber sobre a nossa cultura Yawanawá: língua, as tradições, as plantas medicinais e nossas músicas sagradas. Nós cantamos estas durante nossas cerimônias, quando bebemos nossas bebidas sagradas. Isto é quando nós contamos as histórias de nossos antepassados.

Os Yawanawá são conhecidos por nossas músicas e contos, a minha favorita é ‘Wakomaya’, que significa ‘felicidade’. É uma canção que cantamos para receber os convidados para a nossa comunidade e um convite para eles a dançar com a gente. Sempre que eu canto essa música para minha filha, ela se acalma e escuta atentamente.

Durante as cerimônias Yawanawá nos vemos visões através das canções do pajé, que nos conectam ao mundo espiritual. Assim que os pajés começam a cantar, eles transmitem suas visões para o grupo. Algumas pessoas entendem, outras não.

Durante uma de nossas cerimônias tradicionais, eu tinha uma visão forte que eu estava sendo levado pela mão por minha esposa, que vive em Londres desde jovem. Na visão, ela estava me mostrando uma cidade que apareceu além de uma colina. Quando eu finalmente vim para Londres, eu tinha essa forte déjà vu de ter estado aqui antes. Eu realmente acredito que era de minha visão.

Nós herdamos esses rituais de nossos antepassados. Eles fazem parte de quem somos. É o momento em que você pode se conectar com os espíritos, e ver o mundo de uma maneira diferente.

Caçadas

Homens Yawanawá saem cedo para caçar, por volta das 4 ou 5 da manhã. Nós caçamos sozinhos. Faríamos muito barulho se caçamos em grupos, especialmente no verão, quando as folhas trituram sob os pés. Eu comecei a caçar aos 10 anos de idade e aprendi seguindo meu pai dentro da floresta.

Nós caçamos veados, porcos selvagens, anta. E nós caçamos à noite para a paca noturna, um tipo de roedor sul-americano.

De acordo com o nosso mito, se um caçador Yawanawá encontra um javali com uma perna branca, enquanto a caça, ele tem muita sorte.

Quando estamos caçando, nós imitamos certos animais, a fim de atraí-los para nós, como macacos, veados e jacarés.



© Nixiwaka Yawanawa

Animais de estimação

Minha mãe tinha um papagaio que viveu até aos 13 anos de idade. O papagaio falava – ela nos perguntava: ‘Você quer café?’



© Nixiwaka Yawanawa

Alimentação

Nós comemos bananas, mamão, cana-de-açúcar e suco de mandioca (chamado de ‘caiçuma’) para o café da manhã. E a carne, se houver alguma sobra do jantar da noite anterior. Para o almoço, temos a mandioca novamente, com bananas verdes e purê de banana da terra. Jantar é carne e peixe.

Escalando Ben Nevis

Ben Nevis foi um desafio sobre o que uma grande amiga minha me falou. Ela achou que seria uma boa oportunidade para eu mostrar o meu apoio aos nossos irmãos, os Awá, que têm muitos desafios. Sendo indígenas, nós temos que ajudar uns aos outros em todos os sentidos possíveis. Eu gostaria de poder fazer mais para ajudá-los.

Eu não me preparei muito para a subida. Tendo sido criado na Amazônia, tenho sempre sido preparado como resultado de caça. A maior parte era a preparação mental através da meditação. Eu encontrei a subida cansativa, mas eu ficaria feliz em fazê-lo novamente.

A escalada do Ben Nevis foi uma das coisas mais incríveis que eu já experimentei. A mudança da paisagem, bem como a temperatura foi surpreendente, eu mal podia suportar o frio! Nós só tinhamos alguns minutos para tirar fotos quando chegamos ao cume. Quando eu tirei minhas luvas, meus dedos pareciam gelo.



© Nixiwaka Yawanawa

Da Amazonia para Londres

A primeira vez que ouvi falar sobre Survival foi de um amigo muito próximo, que tem trabalhado com os Yawanawá há 15 anos. Ele também foi uma espécie de patrocinador para a minha viagem à Londres e tem apoiado a minha família e eu em todas as formas possíveis. Estamos além de grato por sua ajuda e amor.

Londres é uma cidade bonita, rica em história e cheio de fantasmas. Sinto uma energia muito forte no inverno, quando eu ando nos parques. Às vezes eu sinto como se eu estou cercado por fantasmas, que estão andando ao meu lado.



© Nixiwaka Yawanawa

Trabalhando com a Survival

Eu acredito que a Survival é muito importante para as tribos, como a nossa, pois ela está comprometida de mudar e ajudar a proteger as nossas vidas. Sinto-me honrado de ter trabalhado com esse grupo estabelecido de pessoas amáveis e motivados que realmente se importam e acreditam em seu trabalho.

Survival pode realmente ajudar a mudar a opinião das pessoas, mostrando ao mundo como os povos indígenas vivem, as nossas tradições e crenças, e os problemas que enfrentamos.

É muito difícil ouvir que outras pessoas acreditam que os povos indígenas são ‘atrasados’ ou ‘primitivos’. Eles estão errados. É uma falta de respeito para com o caminho que escolhemos para viver.

Agora é hora de tomar nossas próprias decisões. Agora é o momento que temos uma voz, e que escolhemos para viver do jeito que queremos.

Terras Yawanawá



© Nixiwaka Yawanawa

Nossa terra é a nossa casa, o nosso lar. A terra é nosso amigo, nosso companheiro. Temos muito respeito por nossa terra, e nós temos a responsabilidade de cuidá-la.

Meu tempo favorito do dia na floresta é no final da tarde, ao pôr do sol, quando eu tomo a nossa medicina sagrada. Todos se reúnem em uma grande área de terra aberta. Ao anoitecer, as aves estão voltando para o poleiro nas árvores Tacana, e há o canto dos pássaros marrons Makukau tudo ao nosso redor. É um momento muito tranquilo do entardecer do dia. Eu sinto falta disso!

A destruição de nossa floresta é terrível, porque a floresta está vivo. É a nossa vida, e a vida dos animais. Nós não separamos a nossa existência disso, todos nós somos um só corpo e um só ser: as plantas, água, árvores e Yawanawá.

Quando vemos o mal vir para a floresta, é como se uma parte de nosso próprio corpo fosse ferido. Isso é como uma doença que se cria em nós e precisa ser curada.

Está agora com 29 anos desde que nossas terras foram demarcadas, mas isso não impede que o desmatamento ocorre na fronteira com o Peru e Brasil. Há um medo de que um dia isso poderia se espalhar em nossas terras, o que irá ameaçar a nossa caça, nossa segurança e a segurança dos animais que vivem entre nós.

O desmatamento é a causa de tantos problemas dentro das comunidades indígenas. E os animais precisam da floresta, tanto quanto nós.

Temos lutado para proteger a nossa Mãe Terra. A medicina mostra a nós, precisamos espalhar a nossa visão para aqueles que não podem ver o quão bonito é este lugar.