O lado sombrio do Brasil: A gigante petrolífera Petrobras adentra a Amazônia profunda

Os Suruwaha são uma tribo recém-contatada, altamente vulnerável a doenças introduzidas

Os Suruwaha são uma tribo recém-contatada, altamente vulnerável a doenças introduzidas

© Adriana Huber/Survival

A estatal brasileira, Petrobras, iniciou atividades de prospecção de petróleo e gás em uma das partes mais isoladas da Amazônia, colocando em risco diversas tribos.

Fontes locais afirmam que a Petrobras instalou 15 balsas com geradores de alta capacidade, tubulações e maquinaria de mineração no rio Tapauá no estado do Amazonas. A prospecção está ocorrendo próxima a sete territórios indígenas incluindo as terras dos índios Suruwaha, Banawa, Deni e Paumari.

Ainda que a constituição brasileira estipule que povos indígenas devam ser consultados sobre projetos que afetem as suas terras, a Petrobras não consultou os povos indígenas da área. A FUNAI, Fundação Nacional do Índio, também não foi informada sobre a prospecção, apesar do fato de que algumas tribos da região sejam isoladas ou foram contatadas há pouco tempo.

Quando perguntada sobre este trabalho da Petrobras na bacia do rio Tapauá, a ANP, Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, declarou que ‘não se encontram em curso atividades voltadas para a exploração e produção de petróleo e gás natural, contratadas ou autorizadas por esta Agência, na região mencionada.’

Balsas de exploração de petróleo, fotografadas na semana passada no rio Tapauá, estado de Amazonas, Brasil.

Balsas de exploração de petróleo, fotografadas na semana passada no rio Tapauá, estado de Amazonas, Brasil.

© Comissão Pastoral da Terra/Prelazia de Lábrea

Em uma carta ao Ministério Público, especialistas brasileiros enfatizaram o direito dos povos indígenas, consagrado no direito internacional, a serem consultados sobre essa atividade e alertaram que ‘impactos irreversíveis podem incidir sobre a vida de mais de 1300 pessoas’. Uma Deputada e um Senador levantaram a questão no Congresso.

A prospecção poderia se mostrar fatal para os Hi Merimã, uma tribo isolada vivendo próxima ao local do projeto. Índios isolados são extremamente vulneráveis a qualquer tipo de contato com forasteiros, uma vez que não têm imunidade a doenças comuns.

Nas décadas de 70 e 80, a Petrobras explorou petróleo no Vale do Javari, lar da maior concentração de tribos isoladas do mundo. Muitos índios isolados, e empregados da FUNAI e da Petrobras, morreram devido aos conflitos gerados pelas atividades de exploração.

Ano passado, os povos indígenas do Vale do Javari reafirmaram a sua oposição a qualquer tipo de exploração de petróleo perto ou em suas terras. Em uma carta, eles avisaram que não querem ver a repetição da tragédia quando projetos da Petrobras ’destruíram nossas malocas, roças, dinamitaram nossos lagos e igarapés envenenando mananciais, causando morte de vários indígenas, contaminaram nossas aldeias com sarampos e DSTs, acúmulo de lixos na selva do nosso território, danificando a fauna e flora, trouxeram malária para a região.’

Petrobras começou atividades de prospecção de gás e petróleo (círculo vermelho) numa das regiões mais isoladas da Amazônia.

Petrobras começou atividades de prospecção de gás e petróleo (círculo vermelho) numa das regiões mais isoladas da Amazônia.

© Survival International

A Survival escreveu à Petrobras, instando-a a suspender imediatamente o seu trabalho na área.

O diretor da Survival International, Stephen Corry, afirmou hoje, ‘O Brasil está pronto e disposto a sacrificar vidas indígenas inocentes em sua ávida busca por lucro. O seu crescimento econômico vem acompanhado de um imenso custo humano: as vidas dos povos indígenas do país. Não se enganem – quando as terras de índios isolados são invadidas, doenças, mortes e destruição se seguem inevitavelmente. Esse é o lado sombrio do Brasil.’

Notas para editores:

- Nas vésperas da Copa Mundial da FIFA, a Survival International está destacando ‘O lado sombrio do Brasil’. 500 anos após a colonização, índios brasileiros continuam a ser mortos por seus terras e recursos. Agora, o governo e proprietários de terras planejam abrir territórios indígenas para projetos industriais enormes.

- Faça o download de uma carta escrita pelos índios do Vale do Javari rejeitando todas as explorações de petróleo perto ou dentro de suas terras. (Pdf, 3.9 MB)

- Os Suruwaha, cujo território fica próximo do local da prospecção, têm estado sob o ataque de missionários fundamentalistas há anos. Os missionários falsamente afirmam que os Suruwaha matam regularmente bebês recém-nascidos. Em 2012, a tribo virou alvo de um canal de TV australiano, Channel 7, em um programa que os caracterizava como membros de um ‘culto suicida’ da ‘idade da pedra’ e os ’piores violadores dos direitos humanos do mundo’. A Survival protestou frente à reguladora ACMA, que determinou que o canal de TV era culpado por quebra de cláusula de racismo.