Líder e último xamã de pequena tribo amazônica morre

Apesar de sobreviver a ataques genocidas contra seu povo, Konibu permaneceu corajoso

Apesar de sobreviver a ataques genocidas contra seu povo, Konibu permaneceu corajoso

© Lati Maraña/Survival

Konibu, líder e último xamã do povo Akuntsu morreu com cerca de 80 anos.

Ele deixa para trás os quatro últimos Akuntsu, que sobreviveram à catástrofe do primeiro contato, incluindo sua viúva Aramira e filha, Inuteia.

Konibu faleceu pacificamente em 26 de maio, em sua rede em sua cabana. Ele sofria de problemas cardíacos há alguns anos.

O imenso carisma e determinação de Konibu, apesar de sobreviver aos horrores de diversas tentativas de exterminar seu povo, eram percebidos por todos aqueles que o conheceram.

Sua força e coragem possivelmente ajudaram a manter vivos os sete sobreviventes Akuntsu, após o devastador primeiro contato em 1995.

Seu papel como o último xamã também foi importante para o grupo para o qual ele regularmente fazia rituais curativos. Ele também costumava cheirar rapé e tocava flauta.

Altair Algayer, coordenador da unidade de campo da FUNAI responsável pela proteção dos Akuntsu, diz que Konibu era: “Extrovertido – sempre alegre e risonho apesar de todos os tipos de atrocidades que tenha passado.”

Assista: A última dança dos Akuntsu.

Ele gostava de cantar músicas e convidava visitantes a dividir sua comida e chicha – uma bebida levemente fermentada. Mas como Altair relembra: “Lembranças que ele tinha e muitas vezes não queria revelar ou recordar.”

Essas lembranças eram, sem dúvidas, terríveis. Nos anos 1970, as tribos dessa região testemunharam uma invasão catastrófica de sua floresta. Povos inteiros foram dizimados pela violência de estranhos, e por doenças às quais não tinham resistência. Enormes partes de terra foram roubadas deles por fazendeiros, com a conivência de órgãos estatais.

Konibu em sua casa na Amazônia

Konibu em sua casa na Amazônia

© Marcelo dos Santos

Rumores de massacres de comunidades indígenas inteiras pelas mãos de fazendeiros armados que rapidamente liquidavam as florestas se espalharam nos anos 1980. Isso foi explicitamente retratado no filme “Corumbiara.”

Em 1985, o indigenista Marcelo Santos da FUNAI encontrou os resíduos de cabanas destruídas e flechas quebradas na área, e obteve uma ordem de proteção para um pedaço de terra chamado Omere.

Apesar das evidências de massacres de indígenas isolados, que estão dentre os povos mais vulneráveis do planeta, a ordem foi revogada pelo controverso presidente da FUNAI na época, Romero Jucá.

O senador Jucá se licenciou como Ministro interino do Planejamento no mês passado, após uma gravação revelou uma conversa em que ele discute planos para deter os avanços da Operação Lava Jato, derrubando a Presidente Dilma Rousseff, atualmente afastada devido ao processo de impeachment.

Os Akuntsu sobreviventes e seus vizinhos, os Kanoê, atualmente vivem relativamente em paz, em um território protegido por um time dedicado de indigenistas da FUNAI.

Com a morte de Konibu, o genocídio dos Akuntsu será completo em breve, e nós teremos perdido uma peça importante de nossa diversidade e riqueza humanas.